Entre 06 e 13 de setembro deste ano (2015, caso você esteja lendo do futuro) ocorreu mais uma edição do Curso de Formação em Espeleo Resgate, em parceira com o Espeleo Socorro Francês SSF - Spéléo Secours Français. O curso foi organizado (e muito bem organizado) pelos nossos amigos do EGB Espeleo Grupo de Brasília.

O SSF é uma comissão interna da Federação Francesa de Espeleologia FFS - Fédération Française de Spéléologie e é responsável pelas ações de resgate em cavernas e outros ambientes subterrâneos, como minas desativadas. Vieram de lá Jean-François Perret (‘Jeff’, Conselheiro Técnico Nacional), Dominique Beau (Conselheiro Técnico Nacional), e Tristan Godet. O link a seguir é para a notícia sobre o curso no site do SSF (em francês, claro): http://ssf.ffspeleo.fr/fr/143-international/actions-internationales/710-formation-bresil-2015

Esta foi a 6ª vez que esse curso foi realizado aqui no Brasil, mas desta vez tivemos um diferencial importante: foi o primeiro curso ministrado por instrutores brasileiros, e os franceses ficaram ‘apenas’ na supervisão. Isso deu mais agilidade ao curso, já que não era necessário traduzir as aulas em francês.


O time de instrutores e equipe de apoio (da esquerda para a direita): Jeff, Dominique, Tristan, Willamy, Leandro Chester, José Humberto, Luiz Aquino, Janaína, Bernardo, Euler e Priscila.

 

Outro ponto interessante é que este foi o segundo curso deste ano. O primeiro foi em março, na cidade mineira de Cordisburgo, e foi organizado pelo Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas (GBPE). Com dois cursos tão próximos, algumas comparações foram inevitáveis, tal como a constatação que os mineiros são melhores de copo que os brasilienses (com algumas exceções).


Mineiro contando vantagem das cervejas de Cordisburgo


Pará, São Paulo, Brasília… todos juntos

 

Outro diferencial deste curso foi a apresentação de uma identidade visual para o espeleo resgate. Todos os instrutores usavam camisetas pretas escritas em amarelo (‘excelente’ para o clima Mambaiense) e os alunos, camisetas amarelas escritas em preto. Um logotipo bem bacana foi criado também, com a figura de um nó em 8.


Material do curso, com o logotipo bacaninha

 

Quase 50 pessoas participaram como alunos, entre espeleólogos da ‘velha guarda’, um pessoal mais novo na espeleo (e com muito gás), mergulhadores e vários bombeiros. Como era de se esperar, a maioria era de Brasilia mas também tinha gente do Pará, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Graças ao apoio da Prefeitura de Mambaí, pudemos utilizar o ginásio de esportes da cidade para boa parte dos treinos. Antes mesmo do curso começar, algumas pessoas aproveitaram a oportunidade para um treino rápido na corda. Uns para relembrar, outros para aprender alguma coisa nova e outros (como eu) só pra se pendurar um pouquinho mesmo.


Esse povo.. não pode ver uma corda que já quer logo se pendurar

 

Enquanto o povo se pendurava, recebi um chamado urgente pra ir conhecer uma das cachoeiras da região, a Cachoeira do Alemão. Munidos de algumas informações básicas da localização e dos caminhos, tocamos pra lá e rapidamente a encontramos. Com uma queda de cerca de 15m e um lago rasinho, o banho refrescante naquele calor insano de Mambaí foi a melhor maneira de começar a semana.


Ô vida marvada!

 

A cerimônia de abertura contou até com o Prefeito de Mambaí. Mas esse foi o final da vida mansa. Durante a semana curso foi bastante intenso, com aulas teóricas e práticas durante o dia e algumas aulas teóricas de noite, pra ver quem aguentava acordado depois de um dia inteiro de treinamento… (a aula de física foi só para os fortes).


Prática com maca TSA

 


Não é só se pendurar na corda não!

 


Não tô dormindo não… tô só pensando nozz.. problemazzz.. de fízzica… zzzzzzzzzz

 

Ainda no inicio da semana, durante uma das aulas práticas no ginásio, recebemos a notícia de um acidente real em uma caverna em Vazantes (MG). Como se isso não fosse suficiente, a vítima era ninguém menos que o Ezio, nosso amigo do Grupo Bambuí e reconhecidamente um dos maiores espeleólogos do Brasil. As notícias iniciais apenas diziam que ele havia sofrido uma queda e uma fratura exposta na perna. Todos ficamos em alerta; os alunos do curso se colocaram à disposição para ajudar no que fosse necessário, enquanto que os instrutores começaram a coletar informações sobre o acidente e preparar equipamentos para uma possível ação.

Felizmente, pouco tempo depois ficamos sabendo que o Ezio já havia sido resgatado e estava bem. Nosso amigo Fox, que estava com o Ezio na hora do acidente (e que já fez o curso de espeleo resgate), coordenou a equipe de brigadistas da Votorantin e realizou o resgate em cerca de 3 horas (veja o relato do Ezio sobre o acidente aqui.


Em alerta, começa a separação do material

 


Contabilizando tudo

 

Passado o susto, as atividades continuaram normalmente. Nos dias seguintes (quarta e sexta) tivemos oficinas na Gruta da Clarabóia. Tinha até um ônibus para nos levar até o local. No primeiro dia, durante a pausa para o lanche, o Jeff se sentiu mal e foi prontamente atendido pelos instrutores e alunos. Uma ambulância de Mambaí o levou para fazer exames na unidade de saúde, e estava tudo bem, tinha sido apenas uma queda de pressão.

A Gruta da Clarabóia tem belos paredões na área da entrada, onde pudemos montar várias oficinas de progressão vertical com desvios e fracionamentos, grampeação, tirolesa e contra-peso. Na parte interna da caverna, fizemos os treinos de montagem de ponto-quente, comunicação e porteio de maca.


Transporte coletivo

 


Macacões sob sol

 


Pronto-atendimento

 


Scherer equipando uma das vias

 


Conferindo o fracionamento

 


Panorama da entrada

 


Uma siesta na hora do almoço

 


De cima (centro-direita da foto), os franceses observam as atividades

 


Serginho, todo Zen, é içado em contra-peso

 


Maurício faz um novo amigo

 

Durante uma das oficinas de tirolesa, enquanto tensionávamos a corda (com a vítima já na maca e pendurada na tirolesa), mais um susto: a corda arrebentou! Rapidamente liberamos a corda do nosso lado e descemos a maca com segurança.

Ao analisar os motivos desse acontecimento tão raro, encontramos dois ‘culpados’: um blocante tipo basic de modelo antigo (sem uma trava de segurança dos modelos mais novos) e o comprimento da tirolesa, que era muito curto e fez com que as tensões na corda fossem muito altas (tá vendo? aquela aula de física não foi à toa não!).


estrago - 1

 


estrago - 2

 

A quinta-feira foi reservada para um “mini-simulado”, realizado na Gruta do Penhasco. De manhã fizemos a separação e contagem do material (aproveitando para isolar a corda que estourou e os blocantes antigos). Chegamos na caverna perto de 10:00, e na hora do almoço recebemos um “delivery” de marmitex. Com quase todo mundo dentro da caverna, sobrou pra nossa equipe (evacuação-2) fazer a entrega das quentinhas.

A remoção da “vitima” demandou uma tirolesa dentro da caverna (executada com perfeição pela equipe do Adolpho) e uma na boca da caverna, sobre a água. Quando a maca chegou no chão depois da segunda tirolesa, todos acharam que era o final do exercido, mas então recebemos a instrução de levar a maca até os carros. O problema é que para sair da gruta e chegar nos carros, você precisa subir uns 60m na vertical por uma trilha que vai serpenteando pela lateral do canyon. Uma trilha que foi feita pra se andar em fila única, um atrás do outro. Se mal cabem duas pessoas na trilha, imagina uma maca e um monte de gente carregando. Nessa hora todos trabalharam em conjunto e chegamos com a maca nos carros às 19:00.


Alguém aí tem um mosquetão pra emprestar?

 


Quarenta e dois PF, sete pão com ovo e três tubaína, confere?

 

O sábado foi reservado para o simulado final, que foi realizado na Gruna da Tarimba. Apesar de não ter muitos trechos técnicos (eram apenas dois contra-pesos mas um foi cancelado por causa de abelhas na saída), a evacuação era complicada porque a vitima estava em um conduto mandrante bem estreito.

Os primeiros alertas foram dados ainda de madrugada, e as primeiras equipes foram enviadas de manhãzinha. No curso de Cordisburgo o Laurent nos disse que um resgate também é um exercício de paciência, já que você fica lá, esperando ser chamado. Desta vez deu pra sentir bem isso, pois só fui ser acionado perto de 11:00. Montada a equipe (evac-2), rumamos para a caverna. A gestão do resgate foi encabeçada pelo Luiz Aquino (atuando como Conselheiro Técnico) com apoio da Janaína e Priscila no PC, e Dudu e Euler no PC avançado.

A evacuação da vítima, apesar de complicada, foi tranquila. Com um conduto tão estreito, fica difícil carregar a maca normalmente, então optamos por ficar agachados no conduto e desliza-la sobre nossas pernas. Nossa equipe estava bem entrosada e nem precisávamos falar muito, só alguns sinais já eram suficientes. Na passagem técnica, o contra-peso da equipe do Alisson funcionou tão bem que parecia o desenho do manual da SSF.

Apesar de que para os resgatistas a sensação é de que o resgate termina com a retirada da vítima, para aqueles que estão no Posto de Comando, o final é quando o último resgatista “dá baixa” no PC. Isso aconteceu por volta de 19:00, totalizando mais de 14 horas de resgate.

[EDIT]: Depois da postagem do relato, o Alisson me lembrou de um ponto que eu deixei passar: a eficiência da equipe de comunicação no simulado (chefiada pelo Deivisson). Os rádios com fio (SPL) e sem fio (TPS) funcionaram perfeitamente. Pra quem já participou dessas atividades, sabe que é difícil conseguir uma boa comunicação entre dois TPS, e eles colocaram três TPS pra conversar!


Esse contra-peso parece o desenho do manual da SSF (foto do Serginho)

 


Ponto Quente pra manter o Paraense aquecido no “frio” de Mambaí (foto da equipe ASV)

 


Equipe Evac-2 (e Simone ASV)

 

Depois de um resgate bem-sucedido, hora de comemorar. Um jantar acompanhado de música, cerveja e caipirinha já é uma tradição nos cursos. A festa teve roda de capoeira, uma rápida demonstração de luta greco-romana, e muita descontração. Logo o Jeferson (Baianinho) assumiu o microfone, e depois disso virou um animado karaokê de samba, MPB e - dada a maioria de brasilienses - Legião Urbana.


Jeff - uma sereia em meu resgate

 


Se meus joelhos não doessem…

 


Achei um banquinho!

 


Brasiliense cantando Legião Urbana (claro)

 


Rodá du Sambá, n’est pas?

 

No domingo o dia começou um pouco mais tarde, pra dar tempo da ressaca passar. Fizemos o inventariado e limpeza dos equipamentos, depois as avaliações individuais, que são sempre muito legais.

 

Pra terminar bem a semana, nada melhor que uma cachoeira. A escolhida da vez foi a Cachoeira do Funil, que fica bem perto da cidade. É um grande sumidouro, com uma bela queda d’água e uma caverna (que não exploramos).


Cachoeira do Funil

 

No final, foi um grande curso. A organização se empenhou e merece os parabéns. Não faltou nada. Os instrutores são excelentes e a evolução do nível técnico dos alunos superou as expectativas. Enquanto que ainda há um longo caminho a percorrer para que o espeleo resgate tenha reconhecimento oficial, estamos no rumo certo.

 

E que venha o próximo!

 

[Nota] O comentário do Alisson também me fez pensar em duas coisas: a primeira é que a gente tem uma certa tendência a lembrar daquilo em que esteve envolvido, e como esses posts são sempre um relato meio pessoal, há o risco de esquecer de alguma coisa (foi mal); a segunda é que quando você não está diretamente envolvido em uma parte do resgate (como na comunicação ou mesmo na gestão), a tendência é de lembrar só se alguma coisa der errado. Se a comunicação tivesse sido problemática, ou se a gestão tivesse sido ruim, todos iriam lembrar; Como tudo funcionou muito bem, acabou passando na hora de escrever.

Se alguém lembrar de mais alguma coisa que passou (ou achar algum erro), avisa!

 

Comments

Deyvid Santana: Show de bola a iniciativa. Muito bom mesmo a vivência e a troca de informações.