Mais um fim de ano, mais uma expedição.

Desta vez a escolhida foi a Toca dos Ossos, no município de Ourolândia, Bahia. Por muitos anos o padrão fortemente labiríntico da caverna, aliado às grandes descobertas na Toca da boa Vista (entre outras), manteve as equipes de topografia distantes de Ourolândia. Uma rápida investida em 1997 rendeu pouco mais de 2000m de linha de trena no conduto principal da caverna, mas ainda havia muito por vir.

A Toca dos Ossos deve seu nome à enorme quantidade de fósseis da mega-fauna Pleistocênica que eram encontrados ali. A grande maioria desse material já foi retirado para estudos, principalmente durante os trabalhos do prof. Cartelle da PUC-MG, mas ainda é possível encontrar muitos ossos.

Geologicamente, na região afloram rochas da Formação Caatinga, de idade Terciária-Quaternária, constituída de “brechas calcíferas, com seixos de calcário cinza-escuro, e calcrete/travertino, que corresponde, em parte, ao mármore Bege Bahia do vale do rio Salitre” (Ribeiro et al., 2002).

Dada a grande extensão dos calcários, fácil acesso e cobertura de solo muito rasa, quase toda economia da região está ligada à extração, corte e polimento do “Mármore Bege Bahia”. Por toda parte vêem-se lavras, maquinário para transporte e corte dos blocos de rocha, e muitos, muitos blocos que foram descartados pelas minerações sem qualquer preocupação com o ambiente. São tantos blocos que alguns são utilizados como “placas” de sinalização ou como suporte para caixas d’água.


“Placas” assim são bem comuns por aqui


Estabilidade garantida contra tornados, furacões e tempestades de areia

Em uma região com tantas lavras, nem é uma surpresa descobrir que a Toca dos Ossos está sob uma dessas áreas. Aliás, ponto positivo para a empresa de mineração (não vou colocar o nome) que, ao ser alertada da presença da caverna na área de extração, paralisou as atividades e está tomando as devidas providências para se adequar às exigências ambientais.

Assim, juntamos a vontade de mapear com a necessidade de se conhecer a extensão e os limites da caverna e rumamos para Ourolândia. Antes mesmo da expedição começar, tivemos a baixa do Lobinho, que teve que enfrentar a difícil escolha entre os ares refrescantes do sertão baiano e a brisa do mar. Depois, foi a vez do Augusto desistir depois que o carro quebrou no caminho. Pelo menos a Magna, a Josy e o Alisson, que vinham com Augusto, não desanimaram e seguiram até Ourolândia de ônibus e taxi. A expedição teve 18 participantes (em ordem alfabética):

  • Adelino Carlos Parizi
  • Admir Brunelli (Malone)
  • Adolpho Milhomem (EGB)
  • Adrian Boller
  • Alisson Jordão
  • Carlos H. Grohmann (Guano)
  • Daniel Menin
  • Ezio Rubbioli
  • Luciana Fakhouri
  • Luis Beethoven Piló
  • Josiane Moura
  • Jussyklebson S. de Souza (Jussy)
  • Letícia Moraes (EGB)
  • Lilia Horta
  • Magna Pontes
  • Michael Knauer (Mike)
  • Murilo Valle
  • Renata Andrade

Saímos de BH dia 25 depois do almoço (Ezio, Lilia, Adrenalino e eu), e chegamos em Ourolândia dia 26 no final da tarde, onde já encontramos com Adrian, Mike e Jussy. E assim iniciamos os trabalhos cervejísticos da viagem. No dia seguinte de manhã, a simplicidade do café da manhã nos levou a pedir por um “upgrade”. A partir daí, o café tinha suco, tapioca, bolo e ovo, muito ovo, quase que só ovo. Na verdade, nunca se comeu tanto ovo em uma expedição. Ovo frito, pão com ovo, ovo com tapioca, ovo no lanche da gruta. O colesterol agradece e manda lembranças.


Café-da-manhã dos campeões

A entrada da Toca dos Ossos fica a menos de 15m da estrada, e a gruta passa por baixo da estrada e vai em direção à área de extração. Por segurança, estacionamos os carros dentro da área da mineração. Na lavra, um epicarste bem desenvolvido e colmatado chama a atenção. O solo é uma capinha de nada.


Panorama da área de lavra

No primeiro dia de topo, o Ezio (que não é bobo) ficou com o conduto principal da caverna, revendo a topografia de 1997, enquanto que eu, Jussy, Malone e Mike fomos rapidamente apresentados ao temido padrão “esponjoso” da Toca dos Ossos. A desgraça não é pouca: pense em um amplo salão, com teto de mais ou menos 1,5m (sempre é menos, bem menos) e repleto de pequenos pilares, sem um conduto principal bem definido. Mapear isso é dor de cabeça pura.


Praticamente uma maquete da gruta

Nos dias seguintes, o restante do pessoal foi chegando e as equipes foram aumentando. Com quatro equipes trabalhando, os metros de linha de trena se acumularam rápido. Todos os dias os dados já eram lançados no computador, para corrigir as eventuais falhas de anotação/leitura e programar as investidas do dia seguinte. Enquanto o Ezio digitava, rolava um certo revezamento entre os membros das equipes para “cantar” os dados, e é claro que cada um queria ser o primeiro da fila, para poder ver o resultado da ralação diária na tela do computador.


Úia! Vixe! Nó!

Dia 31, uma cavernada mais suave para dar tempo de todo mundo se arrumar para a festa. As meninas muito elegantes e os homens… não. Com um bom estoque de cerveja e vinhos, o jantar estava pronto no restaurante da D. Valda, mas a tradição já exige a preparação do Spätzle, o macarrão suíço feito pelo Adrian e pelo Mike, com colaboração de quase todos.


Elegância e sorrisos


Estique!


A mesa posta

Depois da grande ceia, festa com direito a bailinho, rojões e o barquinho para Iemanjá, preparado pelo Bethoven


O barco-pizza

No dia 01, enquanto alguns saravam da ressaca, eu, Josi, Alisson e Adelino fomos a pé visitar o Poço Verde, surgência cárstica e local de captação de água para o município. Na ida ainda conseguimos uma providencial carona, mas na volta não teve jeito. E tome sol na cuca.


Poço verde. Não pode nadar, viu?


Sob o sol

Chegando de volta do Poço Verde, um almoço salvador na D. Valda. Aliás, se não fosse D. Valda, a expedição estaria seriamente comprometida. De tarde, ainda fomos (Bethoven, Jussy, Malone e eu) procurar umas referências de cavernas na região. Achamos a Gruta Santo Antônio, que tem uma igreja em seu interior, tudo muito bem cuidado e arrumado.


Acesso à Gruta de Santo Antônio


Interior da Gruta de Santo Antônio


Cores do sertão

E para completar a festa, ainda teve forró no bar ao lado, e o Daniel deu uma palhinha na percussão


O forrozeiro do sertão

Com esse bando de gente, na hora de fazer a foto oficial da viagem sempre fica alguém de fora. O Jussy perdeu a primeira foto (ressaca…) e no dia da segunda foto, o Alisson já tinha ido embora. O Malone conseguiu perder as duas fotos.


Primeira foto, sem Malone e Jussy (com o Bethoven escondidinho atrás da Lu)


Segunda foto, sem Alisson e Malone

No final, mapeamos pouco mais de 16km de linha de trena. É muita coisa! Realmente as técnicas de topografia evoluíram bastante de 10-15 anos para cá. Olha só o quanto ampliamos a gruta:


Eu era assim…


E fiquei assim!

Colocando a linha de trena no Google Earth, dá pra ver que a mineração vai ter que encerrar as atividades por ali, já que há condutos bem sob as áreas de extração.


Desenvolvimento da Toca dos Ossos

Depois de ver o post do Daniel no TerraSub, fiquei com invejinha e resolvi colocar umas fotos dos croquis.


Obra de arte


Sem Murilagem


A-do-rei

 

E, como ninguém é de ferro, antes do fatídico retorno à urbe, demos uma passadinha em Iraquara, para mapear mais um pouco na Torrinha. A grande surpresa ficou por conta da Pousada Recanto das Algarobas, dica do Malone, que está sendo inaugurada agora em janeiro/2014, e que tem um nível muito acima das outras opções de hospedagem da região, com piscina, churrasqueira, quartos amplos e banheiros limpinhos.


O umbuzeiro da Lapa Doce


Condutos confortáveis na Torrinha


Grandes agulhas de gipsita na Torrinha


Pousada Recanto das Algarobas

Outra parte interessante ficou por conta da descida de Iraquara até Mucugê, que fizemos pela estrada de Guiné, no final da tarde, com a luz baixa do sol batendo nos paredões da Chapada Diamantina.


Paredões no fim de tarde

A volta pra SP foi mais cansativa, eu e o Adelino viemos com o Daniel e a Lu na L200 (que não foi feita pensando em pessoas de 1,80m no banco de trás).

No fim, foi uma expedição excelente. Muito trabalho, muita caverna mapeada, muitas risadas e muitos amigos reunidos. Quem sabe na próxima o Lobinho desista da maresia e o Augusto deixe o carro no mecânico.

Ah, sim. Tem mais um tanto de fotos no Flickr (link).

E tem o post do Daniel no TerraSub (link).

E que venha a próxima!

 

Referência

Ribeiro, A.F. et al., 2002. Mármore Bege Bahia em Ourolândia-Mirangaba-Jacobina, Bahia: geologia, potencialidade e de- senvolvimento sustentável. CBPM. Série Arquivos abertos. (link)

Comments

Daniel Menin: Excelente relato Guano!!! Abs!