Entre 28 de março e 01 de abril de 2013 o Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas (GBPE) organizou uma pequena expedição para o mapeamento da Caverna Torrinha, em Iraquara (BA), logo a norte da Chapada Diamantina.

A Torrinha é uma das principais atrações da Chapada e atrai visitantes o ano todo. O percurso turístico é de acesso fácil e o visitante tem a oportunidade de observar belos salões, condutos e uma grande variedade de espeleotemas, alguns muito raros e frágeis, como as grandes agulhas de gipsita.


Paredão da Torrinha

Quem chega na área de recepção logo vê um mapa da caverna e pode se perguntar por quê organizar essa viagem se o tal mapa já existe? Acontece que aquele mapa foi feito em 1992 por uma expedição francesa (Panchout & Panchout, 1995), mas o nível de detalhamento dos condutos já não reflete mais o conhecimento atual que temos da caverna. Muitas passagens novas foram descobertas nos últimos anos e uma caverna tão importante como a Torrinha merece um mapa atualizado e feito com a precisão da tecnologia atual.


Mapa simplificado da Torrinha.

Adaptado de Cruz (1998) Participaram dessa expedição (em ordem alfabética):
Adrian Boller
Alexandre Camargo (Iscoti)
Augusto Auler
Carlos H. Grohmann (Guano)
Daniel Menin
Ezio Rubbioli
Luciana Fakhouri
Jussyklebson S. de Souza (Jussy)
Lilia Horta
Michael Knauer (Mike)
Roberto Brandi

Combinado o encontro com o restante do pessoal na casa do Eduardo (proprietário da fazenda onde está a caverna), Daniel, Luciana e eu (Guano) saímos de SP no dia 28 e alugamos um carro em Salvador. Saímos de Salvador às 12:33 (em ponto) e chegamos na Torrinha às 19:36, onde encontramos o Augusto, Ezio, Lilia, Iscoti, Brandi, Jussy e Mike já tomando uma merecida cervejinha pós-caverna (quem chega mais cedo consegue ir mais vezes pra caverna…).

Felizes por rever os amigos, tomamos umas cervejinhas, jantamos e tomamos mais umas cervejas. Por volta das 22:31 chegou o Adrian, que encarou 18 horas de estrada sozinho desde BH. No final da noite, rolou uma palhinha da big band Bulhas Brothers, com Brandi no violão e Iscoti na gaita.


Casa do Eduardo


Só alegria


Bulhas Brothers Band


As muitas gaitas do Iscoti

No dia 29 (sexta), vamos à topografia! Montamos três equipes: Brandi, Lilia, Mike e Iscoti iriam continuar o conduto principal que iniciaram na quinta; Ezio, Augusto, Jussy e Adrian foram para a rede labiríntica do final da caverna (Setor Caótico) e Daniel, Luciana e eu fomos para o Conduto das Agulhas Pequenas. Mapeamos a porção sudeste do conduto, e descobrimos que há diversas passagens laterais (a maioria em teto baixo) que não constavam no mapa anterior.


Nosso acampamento


Flores de aragonita no Conduto das Agulhas Pequenas


Uma das várias fotos que eu fiz aproveitando os flashes do Iscoti


À noite, cerveja e bate-papo


Gente séria…


Ou nem tão séria assim

De noite, lá pelas 23:03 a maioria ja tinha ido dormir, restando apenas Mike, eu, Jussy, Adrian e Iscoti, quando o Mike pergunta:

  • Por quê não vamos para a caverna agora?
  • Como assim, tipo “Comando da madrugada”?
  • É, mapeamos até as 06:00 e surpreendemos o pessoal durante o café da manhã.
  • Então vamos! Animamos e fomos preparar os equipamentos.

O mais difícil foi encontrar um kit de equipamentos de topografia, já que os croquistas estavam com seus kits (e dormindo) e os equipamentos extras estavam trancados no carro do Ezio. Por sorte o Daniel havia deixado o kit para fora da barraca e “emprestamos” o kit dele. Na última hora, o Iscoti (de bota, macacão e capacete) falou que estava cansado demais e que não iria. Dizem por aí que ele voltou para a barraca e praticamente desmaiou de tanto sono (de bota, macacão e capacete). Tudo pronto, fomos mapear.

Entramos na caverna às 23:44.

Tudo pronto, fomos mapear. Entramos na caverna às 23:44.

Resolvemos continuar a topo do conduto das agulhas, desta vez para o lado noroeste. Topografamos o trecho principal até o Salão X (que na hora eu chamei de Salão Millenium Falcon, porque eu sou um grande nerd e porque o desenho do croquis parece com mesmo com a nave do Hans Solo, tá?) depois do Salão X há um teto baixo de uns 70 metros de rastejamento, e mapear esse trecho as 04:01 da madrugada foi o fim das nossas forças. Até tentamos descansar um pouco para continuar depois mas não teve jeito, votamos para as barracas e dormimos até umas 10:13.

Depois de um bom descanso, começamos a pensar no que fazer o restante do dia (sábado) e como bons workaholics de topografia (topoholics?) resolvemos voltar e mapear a continuação do Salão X. Essa continuação é realmente muito bonita e interessante, com um escorrimento de calcita gigantesco (mais de 100 metros de perímetro), limitado dos dois lados por abatimentos de blocos. Essa área não existe no mapa anterior e foi descoberta há pouco tempo pelo Eduardo da Torrinha, que batizou o trecho de Conduto Maravilha.

Saímos cedo da caverna (15:07) para preparar o churrasco da noite. Uma passada rápida na Lapa Doce para rever Dona Rita, Cláudia e comer o inigualável bolinho de queijo.


O emaranhado de galhos do Umbuzeiro de Dona Rita

À noite, para acompanhar o churrasco (a cargo do Jussy), Mike e Adrian prepararam um Spätzle, uma receita de família de macarrão tipicamente Suíça (ou seria alemã?). Tudo com luz dos capacetes, já que energia acabou umas 18:16 e só voltou de madrugada. Teve até ovo de chocolate, cortesia do Augusto.


Preparando o churrasco


Fazendo o massa do Spätzle


Batendo a massa


Se até o italiano elogiou, é porque estava bom mesmo


Discutindo os rumos da caverna…


Eu acho que é por aqui


Quem era o safado que estava tomando Fanta??

No ultimo dia de topo (domingo), Mike e Adrian foram embora às 05:05 da manha, e Augusto e Jussy iriam embora ao meio-dia, então as equipes estavam reduzidas. Enquanto Ezio, Daniel e Lilia voltaram mais uma vez para os labirintos, eu, Luciana, Brandi, Iscoti e Jussy (só até as 10:59) fomos fechas umas laterais que ficaram do Comando da madrugada e fazer umas fotos no Maravilha. Terminamos essa parte cedo e eu e Brandi deixamos o Iscoti com a Luciana fazendo fotos e fomos procurar a passagem para o Salão Pilões, que havia passado despercebida no primeiro dia de topografia.


Escorrimento no final do Conduto Maravilha (e viva os flashes do Iscoti)

No caminho o Brandi me mostrou um conduto com uma bela brecha intraformacional no calcario, muito didática. Encontramos a passagem e depois de uma pequena escalada, chegamos no salão, que é bem amplo (mais de 60m), e quase todo em blocos abatidos bem chatinhos de andar, já que vários dos blocos são um pouco soltos, o que torna o caminhamento difícil.


Olha que coisa mais linda (a foto tem uns 50 cm na vertical)


Agora com escala


O conduto da brecha. Brandi na iluminação

Mareamos todo o salão e ainda encontramos uma pequena passagem inferior, com belas agulhas de gipsita saindo diretamente de uma camada pelítica na parede, coisa que eu ainda não tinha visto. Na volta, ainda fizemos um pequeno tour pelos salões da entrada, acima da passagem da francesa.


Hora de desmontar acampamento

À noite fizemos um último jantar no Eduardo e tocamos um pouco na estrada para ganhar tempo na segunda-feira. O carro do Ezio seguiu para Seabra e nós dormimos na pousada Pai Inácio, que valeu pelo belo visual dos morros da chapada com a luz amarelada do inicio do dia, antes de encarar a estrada até Salvador e o vôo de volta para são Paulo.


Morro do Camelo ao amanhecer

Foi uma viagem excelente. Apesar do pouco tempo, trabalhamos muito, mapeamos muito e nos divertimos mais ainda. Que venha a próxima!

 

Quer mais? Então vai lá no TerraSub ver as fotos do Daniel Menin: http://terrasubespeleo.blogspot.com.br/2013/04/expedicao-torrinha-2013.html

 

Vai também no blog do Iscoti pra ver umas fotos de babar: http://iscoti.wordpress.com/2013/04/05/torrinha-2013-fotos/

E como se não bastasse, ainda tem o video que o Iscoti fez: https://www.youtube.com/watch?v=3qsUlRElRkM

 

 

Referências

Cruz, F., 1998. Aspectos geomorfológicos e geoespeleologia do carste da Região de Iraquara, centro-norte da Chapada Diamantina, Estado da Bahia. Dissertação de Mestrado, Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo.

Pierre-Yves Panchout, Jean-François Panchout, 1995. Brasil, Aventures spéléo sous les tropiques: São Paulo, Minas Gérais, Bahia, Piaui. Groupe Spéléologique Méandres. Rouen. http://books.google.com.br/books?id=U7DWOAAACAAJ

 

Comments

Daniel Menin: Ficou excelente seu relato Guano! Revivi a viagem e dei boas risadas. Valeu!